O sino tocou mais uma vez no cemitério do Caju

Ano passado, por ocasião da minha colaboração com o Jornal A Nova Democracia, acompanhei 8 velórios de jovens assassinados a tiros por policiais militares noRio de Janeiro

Por conta de nossa ação de verificação, procuramos as famílias que tem seus filhos assassinados pela polícia para sobretudo, contestar a versão “oficial” divulgada pela imprensa racista, que sempre coloca a vítima como suspeita. E contemplar a versão da família e dos moradores como a versão oficial.

No dia 20 de junho fomos prestar solidariedade a família de Aliston Ancelmo Ferreira de 17 anos, morto na madrugada do dia 18 quando estava em uma festa na favela de Manguinhos. Aliston foi atingido pelas costas com um tiro de fuzil quando tentava se proteger junto aos outros participantes da festa, do ataque do caveirão (temível veículo blindado da polícia do Rio e que é o chofeur da morte).

Assim que cheguei abracei Ana Paula Oliveira (mãe de outro jovem, morto em Manguinhos em maio de 2014), e ela me disse:

– Mais uma vez meu amigo, nos vemos no cemitério, mais um jovem assassinado.

Foi um dos velórios mais duros pra mim, nesses idos de verificação da morte. Na verdade o caso de Aliston se parecia com todos os outros: jovem inocente, negro, de favela ‘pacificada’, morto com tiro de fuzil, cujo futuro foi interrompido pela farsa da segurança para os jogos olímpicos na cidade.

Mas dessa vez ver a família simples de Aliston derramando suas lágrimas sobre um caixão sem coroa de flores, tantos jovens abraçados olhando o corpo imóvel do amigo, a mãe precisando ser amparada tamanho sofrimento…não consegui resistir. Me retirei e precisei chorar.

M. de 16 anos, amigo de Aliston que estava na mesma festa me contou: “Eles chegaram de madrugada e começaram a atirar. Todo mundo saiu correndo. Teve muita gente que se machucou na correria. Poderia ter morrido muita gente”. Alguém lhe perguntou: “E você vai continuar indo pro baile?” Marlon respondeu: “Nunca mais tia, nunca mais eu vou pro baile”.

Triste realidade da juventude de favela cujo espaço de divertimento e lazer é um campo de guerra. Cujo prazer é posto na balança com a necessidade de sobreviver.

As palavras do pastor confortavam parentes amigos, quando alguém me avisa da suspeita de um P2 (policial infiltrado) no velório. De fato havia um sujeito parado próximo ao velório e algum momento parecia tomar fotos dos presentes. Me aproximei e lhe disse: “Meus sentimentos. Veio velar seu parente?” E o sujeito se esquivou e desapareceu na multidão de pessoas tristes que choraram a perda de seus entes no cemitério. Não sem antes ser registrado pelos celulares dos presentes.

O sino tocou mais uma vez no Cemitério do Caju, e la fomos nós em cortejo até o setor de covas rasas onde Aliston seria enterrado.

O procedimento foi rápido e o coveiro informou: “Cova 73.491. Anotem esse número para saber onde ele está enterrado”. A vó de Aliston precisou ser amparada por parentes porque mau conseguia se manter de pé e se escorava pelos jazigos, ao mesmo tempo que alguns amigos abraçados, olhavam a cova sem descolar o olho dela, em um profundo sinal de despedida que ficou gravado na minha memória.

Aos poucos parentes foram deixando o túmulo de Aliston e Ana Paula chegou próximo a mim disse: “Vou visitar o túmulo do Johnatha, nos vemos la na entrada do cemitério”.

No final, já em frente ao ônibus que trouxe o pessoal de Manguinhos pro velório, o pai de Aliston veio em nossa direção e disse que queria gravar uma entrevista para que divulgássemos a versão da família sobre o caso. Sobretudo porque a única cobertura na TV Record, dentre outras grosserias típicas do jornalismo irresponsável dessas emissoras, disse que a morte ocorrera na favela do Jacaré, o que evidencia o total descaso com a memória da vítima e o conforto da família.

Pai de Aliston, Paulo Roberto Ferreira de 58 anos nos contou: “As meninas foram na minha casa me chamar…Quando cheguei no campo (onde ocorria a festa) encontrei o corpo do meu filho no chão baleado…Eles (que estavam na festa) ficaram encurralados pela polícia, que não deixava ninguém sair pra se proteger dos tiros. Também não me deixaram socorrer o meu filho, mas mesmo assim eu agarrei ele me sujei todo de sangue e fui pro UPA onde foi decretado o óbito dele. Não sei se é por causa das Olímpiadas, mas estamos pagando muito caro por isso, porque querem fazer como se o Rio estivesse seguro. Eu acredito mais na justiça de Deus que na nossa aqui”.

Eu também, seu Paulo, foi o que pude responder.

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