BOMBOZILA — Descolonizando o audiovisual pela soberania do visível

Artigo do Grupo de Pesquisa Comunicação e Cultura em Televisualidades, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG

Por Frederico Ângelo

O que o termo “resistência na tela” pode sugerir? Se você pensou na tela do seu celular ou smartphone com algum tipo de película, ou mesmo uma tela composta de material a prova de impactos, convido você a refletir sobre o termo “resistência na tela”. O site de compartilhamento de vídeos Bombozilaapresenta um catálogo de vídeos latino-americanos e caribenhos cuja proposta ultrapassa a “resistência na tela” para nos conduzir a uma reflexão sobre o lugar da fala, a soberania das imagens em sua relação com a cultura. Abaixo temos uma breve descrição do site:

BOMBOZILA — Descolonizando o olhar e construindo a nossa memória audiovisual.

 
Tela inicial do site

Comecei perguntando sobre o termo “resistência na tela” e, na descrição do Bombozila, grifei um segundo termo que considero importante: “soberania audiovisual”. Afinal, o que estes termos têm a dizer sobre o Bombozila e a produção latino-americana?

Afinal, todas as telas são iguais? Uma prosa entre tecnologia e soberania

Ao acessar o site Bombozila temos em nossa tela um catálogo de produções audiovisuais disponíveis para a exibição. Há uma produção em destaque e as demais se encontram logo abaixo para a escolha do usuário. Com um design parecido com os demais sites de streaming, como o da Netflix, por exemplo, surge uma primeira pergunta: o que tem de diferente nesta tela ou neste site? Por que este Bombozila, cujo conteúdo possui produções audiovisuais latino-americanas, africanas e indígenas, apresenta-se como aquele que merece nossa atenção e audiência? Em que ele se difere da plataforma Netflix?

A resposta pode ser surpreendente, e até superficial, caro leitor. Para as perguntas feitas acima, eu poderia responder: as telas são tecnicamente iguais!

Antes que mude de página, depois desta afirmação, convido você a pensarmos juntos sobre as formas de consumir o audiovisual. Em tempos de múltiplas telas, o audiovisual se tornou um produto mutável. Podemos assistir a um vídeo em qualquer lugar, de forma atemporal e de diversas formas: na posição vertical ou horizontal, na tela do celular, na TV ou smart TV. São várias as opções de consumo.

 
Documentário do site Bombozila

A tecnologia possibilitou a democratização do consumo bem como da produção audiovisual, fazendo com que a mesma tela que reproduz também capte imagens de diversos formatos e resoluções. Por isso que a resposta pode parecer superficial. Porque a plataforma utilizada pelo site Bombozila, ou por outro site de compartilhamento de vídeos, localizado em qualquer continente, parte do mesmo principio tecnológico: a oferta de um catálogo de vídeos que são alocados em um servidor privado ou que seja utilizado a partir de “repositório de vídeos” como o Youtube ou Vimeo, que são compartilhados através de hiperlinks em seus respectivos sites.

Se a resposta é essa, simples e até superficial, como fica a soberania audiovisual — anunciada como uma política do Bombozila — se os vídeos estão alocados em servidores dos conglomerados da internet? A quem pertence o direito de dar a visibilidade do vídeo? E tendo os direitos sidos cedidos a estes grupos, a partir do momento que o vídeo se encontra em servidores de terceiros, qual seria a responsabilidade do autor e do servidor?

Assim como em outras dimensões de nossa vida social, como a econômica e a política, o conceito de soberania é permeado pela existência de regras, de cessão de direitos, de regulação em diversos setores, inclusive o audiovisual. Os vídeos só são dados a ver ao obedecerem as regras do que é tornado visível ditadas por aqueles que possuem o poder econômico ou politico da internet. Caso contrário, os vídeos tornam-se invisibilizados, assim como aqueles que os produzem e que clamam a visibilidade sobre suas lutas, tradições e sua posição de fala. A busca da soberania das imagens encontra-se em um campo de batalha entre a invisibilidade e a visibilidade, mediada pela tecnologia de grandes repositórios de vídeos e seus servidores. Submetidos a direitos e deveres que podem ser questionáveis justamente a partir do sentido de soberania que querem (des)construir.

Portanto, as operações tecnológicas utilizadas por estes sites são iguais; bem como a regulação existente sobre estes vídeos é a mesma para todos os tipos de conteúdo. Ainda assim, é possível falar em soberania e em visibilidade na rede?

Se, como já assinalamos, no aspecto do design, todos os sites de compartilhamento são iguais por que Bombozila reivindica uma soberania audiovisual? Existe algo para além da tela que os tornam diferentes?

Tecnicidade: onde a imagem se encontra com a cultura

Existe uma diversidade de vídeos na internet, existe também uma diversidade de conteúdos que compõe estes vídeos. Segundo dados do Youtube, (para saber mais, clique aqui) atualmente existem em sua plataforma mais de um bilhão de usuários, distribuídos em 91 países e 80 idiomas e um bilhão de horas assistidas por dia!

A apresentação destes dados me provocou alguns pensamentos. Um deles é que é preciso ir além da audiência conquistada por estes vídeos (alguns deles do próprio Bombozila alocados em seus servidores), se quisermos alcançar mais do que números e mais números. Ao atentar-me sobre como estes vídeos se apresentam na tela do usuário (quais imagens temos na tela, quais composições, a quem elas pertencem, o que têm a dizer) comecei a entender que existe aí um encontro. Que encontro é esse?

Entre a imagem e sua visualização há um encontro. Há uma afetação entre o nosso modo de ver e a nossa seleção de vídeos e imagens; o que buscam ou selecionam os nossos olhos. Dentre a seleção dos mais de 1 bilhão de opções de vídeos estabelece-se uma verdadeira negociação entre a retina e a tela. A chave deste encontro nos abre o caminho para as respostas que buscamos. Entre a retina e a tela está a cultura. Quando a técnica e a cultura se encontram, temos a tecnicidade.

No livro A Guerra das imagens (1994) o autor Serge Gruzinski detalha a importância das imagens para nossa constituição cultural e como elas tornavam um povo visível. Portanto componentes técnicos ou condições de captura da imagem perdem ordem de importância quando a cultura emerge e se torna visível através do olhar.

Ao selecionar um vídeo indígena ou um vídeo sobre os movimentos estudantis, o importante, como salienta Gruzinski, é como a imagem pode tornar visível o percurso cultural que a sustenta, os significados e traços nela contidos que constituem certa forma de mostrar o mundo.

Categoria Movimento Estudantil

Pensando neste encontro entre a imagem e sua visualização, W.J. T Mitchell faz a seguinte pergunta: o que querem as imagens? A resposta desta pergunta requer que olhemos a tela como algo multiestável. Com possibilidades de querer muitas coisas. A depender daquele encontro que citamos…

Assim, seja um vídeo sobre autonomia e territórios ou uma tribo indígena, se é um vídeo amador ou profissional, não faz diferença. O que está em jogo são as negociações entre aquele que vê e aquilo que é mostrado. É parte de um composto onde a imagem reivindica seu papel de fala e a cultura é constituinte na formação da mesma.

Está imagem que busca o seu lugar de fala, o site Bombozila, propõe a dar a visibilidade.

Categoria Movimento Indígena

Mas, essa conversa não termina aqui. Existem outras questões a serem debatidas neste espaço. A cada clique, a cada visualização temos novas negociações com a imagem. Não que a mesma mude a cada clique, mas nosso modo de ver a imagem muda a cada nova experiência. Nosso modo de ver o mundo é agenciado pelos modos através dos quais esse mundo é mostrado. Que modos de mostrar são esses feitos por Bombozila?

A proposta de apresentar um catálogo de vídeos com tamanha diversidade de temas e estilos me conduz a uma primeira questão: será que o objetivo proposto pelo site vem sendo alcançado? Será que as minorias ganharam com as imagens uma forma de compartilhar sua cultura, seja no campo da religião, das tradições, da luta, dos relatos de fatos históricos e etc? Bombozila se apresenta como uma possibilidade dentro do campo do visível. Suas imagens também possuem algo a dizer, como argumenta Mitchell, partindo das questões do cotidiano até as tradições de uma determinada população. Os registros das imagens carregam consigo a esperança de uma eternidade visível, uma memória sempre viva.

Sob esse entendimento, os termos descritos no site ganham sentido: a resistência da tela significa como uma determinada população ou grupo social busca compartilhar seu olhar sobre a história, sua luta por construir memória e preservar seus direitos. Eis a soberania: aquela de quem encontrou no audiovisual uma tela para colocar a sua imagem em posição de fala.

Categoria Autonomia e território

Encontramos no Bombozila um caso no qual as imagens se oferecem para além do entretenimento. Elas propõem contar a história sócio-política do continente latino-americano e funcionam como ferramentas políticas e sociais de um povo. Há uma narrativa, uma história que precisa ser contada, denunciada ou simplesmente transmitida para as futuras gerações para que compartilhem sentidos, visões de mundo e relatos que fizeram de nós quem somos.

Bombozila e o lugar da fala

Categorias do site

Ao visitar o site, duas abas chamaram minha atenção: categorias e TV comunitária. Em verdade, não me pareceu fazer sentido que viessem separadas.

Categorias do site

A TV comunitária poderia ser uma subcategoria dentro das demais a serem descritas. Em outras palavras, pergunto: por que separar TV comunitária das categorias de documentário, identidade de gênero, cine afro, movimento estudantil, ficção, arquivo, infanto-juvenil, indígena, meio ambiente, autonomia e território, cidades globais?

Mesmo que a produção dos vídeos classificados como comunitários seja realizada pelo Movimento de Livre Mídia ou outro órgão social, não estariam eles produzindo conteúdos que poderiam vir classificados nas categorias existentes? Um vídeo comunitário não pode ser também um documentário, ou um vídeo indígena ou sobre o meio ambiente? Afinal, se os vídeos apresentados na TV comunitária são parecidos ou possuem uma proposta semelhante ao já apresentado em outras subcategorias, por que deixá-los num lugar a parte? Caso algum interessado em vídeos indígenas, por exemplo, vá direto à categoria indígena e não busque pelo material na TV comunitária, ele poderá potencialmente deixar de fora de sua busca muitas produções que também abordam esse mesmo tema e que foram realizadas por iniciativas comunitárias.

As categorias em sua maioria representam a questão sócio-política reforçando, assim, o papel do audiovisual para estas minorias: o lugar da fala, da denúncia, do território, da celebração, da cultura etc. Também podemos encontrar vídeos de entretenimento infantil e webssérie. São vídeos que adotam a linguagem documental preferencialmente talvez pelo consenso estabelecido em torno deste estilo que adota o gesto político no simples ligar da câmera. A imagem encontra voz como existe também o encontro da voz com a imagem; os relatos carregam consigo rastros de um passado de experiências.

Com Bombozila, a constituição do povo latino-americano se encontra novamente com aquela matriz que tem sustentado nosso fazer cultural e histórico: a oralidade. Somos um povo de cultura oral. É através da oralidade que encontramos os relatos dos primeiros nativos destas terras. Agora a oralidade se junta à imagem para formarem um composto no qual a primeira passa a ter o que dizer e ganha voz quando se encontra com a segunda.

Cada categoria apresenta um traço que chama a atenção. Em Cine Afro os vídeos sobre a religiosidade e tradição africanas em nosso continente tem como propósito apresentar a origem de um povo que contribuiu para a constituição da América Latina; o que chama atenção em Movimentos estudantis de vários países, são as ações editadas com cortes secos ou inexistentes na tentativa de captar o ambiente vivido durante as manifestações filmadas; Autonomia e territórios demostram o lugar de disputa entre os nativos e o poder econômico que silencia aqueles que lutam por suas terras.

Ao observar a tela que apresenta o catálogo de vídeos, a pergunta de Mitchell (o que querem as imagens?) começa a ser respondida. As imagens formam subcategorias a partir de certa estratégia de comunicabilidade por parte dos que as produzem: parecem querer mostrar com a apresentação proposta pelo site uma (re)construção das matrizes culturais que as sustentam. E seria isso o que está sendo visto? Aqui reside aquele encontro do qual falamos na semana passada, lembram-se?

Um encontro entre a imagem e seu espectador (aquele que a visualiza). O “lugar” desse encontro é a cultura. A imagem tem a dizer (e muitas vezes dizem algo que extrapola as bordas da tela), mas isso só se torna possível quando esse diálogo proposto ocorre no terreno da cultura e seus rastros.

O site através dos vídeos e de sua descrição apresenta debates sobre o audiovisual assim como o seu papel na sociedade: o vídeo como um ato politico, o vídeo como questão social, o vídeo como relato histórico e o vídeo como patrimônio. As imagens querem se tornar, para o latino-americano, a ferramenta de um relato da experiência, seja na constituição do seu povo ou fatos por ele vividos. As imagens querem, também, alimentar expectativas de um futuro, signos de sonhos e possibilidade de um amanhã melhor.

E o que dizer sobre a produção audiovisual dos vídeos e do próprio site? O que está em jogo em termos de soberania e resistência?

Uma observação inicial de alguns dos vídeos alocados no site e uma primeira constatação: a lógica do audiovisual que permeia as produções possui características televisivas. Vemos que os enquadramentos, a estética e alguns aspectos das narrativas possuem elementos televisivos. Mas isso está em todo lugar. Somos diariamente afetados por propagandas que convidam a ter a experiência televisiva levada a todos os lugares nos mais diversos dispositivos, como a Netflix, que também possui em seu catálogo produções que adotam a lógica televisiva. Mas, se Bombozila centra uma de suas propostas na descolonização do olhar, como compatibilizá-la com isso que acabamos de constatar?

A resposta pode ser dada pelo que se considera como descolonização do olhar. Ela parece ir contra a um tipo de globalização do olhar tal como parecem promover os grandes serviços de streaming. O caminho é o de tentar entender a proposta do Bombozila de descolonizar o olhar enquanto uma plataforma global. Nesse contexto, o sentido dado ao termo “descolonizando o olhar”, vai ao encontro da “soberania audiovisual” da região, tal como proposta pelo site.

Se antes a fuga para a dominação da mídia eram os ambientes de rede, como a internet, hoje a busca pelo entretenimento sem sair de casa podem levar ao consumo de grandes produções dos colonizadores. Bombozila entra na disputa por esta audiência que, ao descobrir o site, descobre junto muitas possibilidades de ver. E este serviço de streaming na América Latina está iniciando e apresenta um crescente consumo a cada ano. Podemos conclui-lo como um acerto? Sim. Mas seria simplista imaginar que apenas o fator “novidade” seria responsável por esta escolha. Quando falo em audiovisual, incluo formas de consumir, de produzir e de mostrar vídeos. E todas elas possuem características próprias. Quais seriam as nossas?

O que sugiro, de forma não conclusiva, é que a televisão faz parte do imaginário latino-americano e se configura como um de seus primeiros contatos com o audiovisual. Ao propor ser uma janela de visibilidade aos produtores independentes, aos movimentos e minorias, Bombozila não apresenta exatamente algo em termos de experimentação dos modo de fazer. O imaginário e regime de visibilidade televisivos atravessam a criatividade. As tradições, os costumes, os relatos e as denúncias são enquadrados de modos que podemos identificar como televisivos. Seja no site, nos dispositivos móveis, no televisor da sala ou na tela do ônibus, a soberania audiovisual se encontra, de algum modo, regulada por esse regime televisivo. Por isso, as imagens das minorias nem sempre cabem na tela e nem sempre o olhar é descolonizado. Mas isso não quer dizer que o site Bombozila não seja de fato um dos passos para que estas imagens não se estabeleçam como um posicionamento político.

Afinal, o que querem estas imagens? A resposta vai muito além de um desejo de estar em um enquadramento. Seu desejo é mostrar o seu lugar de fala ou, dito de outra maneira, o seu lugar (político) de imagem.

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