Amazônia: Indígenas Guardiões da Floresta foram emboscados na selva maranhense

Por Vito Ribeiro

No final da noite de sexta-feira 1º de novembro, começaram a chegar áudios e notícias no celular de que indígenas – enquanto caçavam na mata – haviam sofrido uma emboscada de madeireiros ilegais, que uma deles havia sido morto e outro ferido, no interior da Terra Indígena Araribóia, no município de Bom Jesus das Selvas – Maranhão, entre as aldeias Lagoa Comprida e Jenipapo.

Paulo Paulino Guajajara – Kwahu Tenetehar, conhecido na aldeia como “Lobo Mau” foi uma das vítimas fatais, e até o fechamento dessa matéria, seu corpo ainda não havia sido retirado do local para levá-lo à sua aldeia. Paulino foi atingido na região do pescoço e não resistiu. Laércio Guajajara – Tainaky Tenetehar, que estava junto, conseguiu fugir mas ficou ferido gravemente, com um tiro nas costas e um no braço, e se encontra hospitalizado no momento.

Paulino Guajajara – Guardião da Floresta – Foto: Patrick Raynaud

Atualização 03/11/2019: Na entrevista concedida por Laércio Guajajara – sobrevivente da emboscada – à Pública, foi confirmada a versão de que os indígenas estavam sozinhos na mata caçando e foram surpreendidos e emboscados pelos madeireiros. Ainda segundo informações obtidas pelo veículo, não há confirmação de que um dos não-indígenas foi baleado e nem de que seu corpo está desaparecido como foi divulgado ontem. A avaliação inicial da Polícia Militar de Amarante do Maranhão é de que houve uma emboscada, sem indício de confronto.

A região da TI Araribóia

A região é históricamente conhecida por conflitos de terra, promovidos pela exploração ilegal de recursos naturais de terras homologadas, e reconhecidas pela União, além de incêndios masivos que devastam a floresta e os meios de sobrevivência dos povos indígenas.

Alertas de desmatamento em Terra Araribóia, documentado em 2018 – ISA

O relatório anual do CIMI Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, já em 2017, colocava o Maranhão como o estado com o maior número de conflitos indígenas no país, com 18 casos de invasões de terras indígenas. Os casos envolviam disputas com fazendeiros, grileiros, madeireiros, a influência das ferrovias para extração mineral, dentre outras ocorrências.

No estado do Maranhão, 71,28% de sua floresta original, que fica na Amazônia Oriental, foi desmatada. O equivalente 105.195 km² de mata. Grande parcela da floresta que está sendo devastada ou explorada ilegalmente, encontra-se em área indígena. As terras indígenas, que por lei são de proteção integral, equivalem a 52% dos 42.390 km² de floresta ainda restantes no estado. Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 13% das áreas indígenas no estado foram desmatados.

Em outubro de 2015, um incêndio devastou cerca de 220 mil dos 413 mil hectares da Terra Indígena Araribóia, o que representa mais de 50% da área (INPE). Em 2016, os incêndios continuaram a agravar a situação. Foram registrados 408 focos de incêndio no interior da área indígena, no período de janeiro a novembro daquele ano. As queimadas provocam impacto direto na vida dos índios awá-guajás e guajajaras.

Em 2019 com as últimas queimadas na Amazônia, o estado do Maranhão identificou somente em setembro, 3,6 mil focos de incêndio, que representam um aumento significativo de queimadas em relação aos anos anteriores.

O que fazem os Guardiões da Floresta?

Paulino Guajajara, morto no ataque, e Laércio, ferido e hospitalizado, integram o grupo indígena chamado Guardiões da Floresta. Este grupo, cansado do abandono do estado e dos órgãos de proteção indígena, começou em 2012 a realizar incursões de monitoramento na mata para proteger seu território da exploração ilegal e defender seus modos e costumes de vida.

Atualmente diversas Terras Indígenas da Amazônia contam com grupos de guardiões e guardiães da floresta que monitoram seus territórios e comumente expulsam madeireiros e demais empreendimentos ilegais de suas terras.

Guardiões Guajajaras monitoram a chegada de caminhões pelas estradas. Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

“Eu estou orgulhoso dos guerreiros continuarem a luta, porque nossa terra era considerada como perdida”, disse Laercio Guajajara, em uma entrevista que deu à imprensa em setembro.

Olímpio Guajajara, também uma das liderançãs dos Guardiões, denunciou na mesma entrevista: “Quem deveria fazer o trabalho de fiscalização e proteção das terras indígenas não faz” então eu tenho a missão de ter de proteger as terras”.

Veja esse vídeo de Junho de 2019 em que Olímpio denuncia a ação de pistoleiros na região.

Nessas incursões os Guardiões chegam a ficar de 15 a 20 dias na mata, acampando e avançando no monitoramento de vastas extensões de floresta amazônica. Neste monitoramento utilizam tecnologias de GPS, drones e câmeras filmadoras para identificar riscos e documentar a exploração ilegal e o roubo de recursos de suas regiões, e por fim poder responsabilizar legalmente os envolvidos.

Madeireiros são interceptados por indígenas e entregues à polícia local. Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Constantemente criminalizados pela imprensa local, a ação dos guardiões é fundamental para proteger a floresta da exploração ilegal patrocinada pelos latifundiários.

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Algumas dessas ações já foram acompanhadas por agentes da polícia militar ambiental, que muitas vezes se faz necessária para respaldar as ações e confirmar que os grupos indígenas não operam com violência nem na ilegalidade, e que na verdade são medidas urgentes e necessárias para proteger seus territórios e seus povos da ganância dos empresários e latifundiários.

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Bolsonaro Tem Sangue Nas Mãos

A conjuntura dos ataques e exploração ilegal em terras indígenas da Amazônia tem um cenário complexo e interconectado com as estruturas do poder político em Brasília. Os enfrentamentos entre madeireiros e indígenas que se intensificam na floresta estão diretamente ligados ao discurso criminalizador e racista empreendido pelo gerente de turno, Jair Bolsonaro.

Suas falas em redes sociais e pronunciamentos oficiais, quando se referem aos modos indígenas e suas terras, sempre vêm carregados de deboche, preconceito, estereótipos e ofensas. E diariamente suas mensagens reforçam a impunidade e dão respaldo oficial aos crimes de latifundiários, grileiros e madeireiros que agem na ilegalidade.

É preciso atacar frontalmente essa narrativa de Bolsonaro de que os povos indígenas estão atrasados e desejam o “progresso”. Os povos da floresta sabem muito bem o que querem, e se levantaram com os recursos que podem para defender bravamente suas terras da sanha do capital transnacional e dos latifundiários locais.

Avante povo de luta!!! Não haverá esquecimento para a morte do guerreiro Paulino Guajajara, nem perdão para essa emboscada covarde contra os Guardiões da Floresta. Sua digna luta será lembrada, celebrada e propagada, para dizer ao continente latino americano que:

Os Povos Indígenas da Amazônia Brasileira Também Estão Em Pé de Luta!!!!!

PAULINO GUAJAJARA: PRESENTE HOJE E SEMPRE NA LUTA!

Paulino em acampamento na floreste. Foto: Ueslei Marcelino / Reuters
Foto Sara Shenker – Survival Internacional

“Essas pessoas acham que podem vir aqui, em nossa casa, e se aproveitar de nossa floresta? Não. Nós não permitiremos isso. A gente não entra na casa deles e rouba, não é?”

Kwahu Guajajara para matéria da Survival International em junho de 2019.

Veja a nota da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil)

Atualizações 03/11/2019:

“Ambos voltavam de um dia de caça, quando se depararam com uma emboscada, homens armados que podem ser caçadores ou madeireiros” conta Carlos Travassos, indigenista que trabalha para os Guajajara, em entrevista para a imprensa.

A morte de Paulo Paulino despertou comoção imediata entre as entidades de apoio ao meio ambiente. Jovem, com espírito de preservação da mata e de seu povo, era casado e pai de um menino. “O pai de Paulino é o maior cantor tradicional dos Guajajara, um líder espiritual”, disse Travassos. O guardião já estava sob ameaças de morte há algum tempo, tanto que começava a negociar o ingresso num programa estadual de direitos humanos para reforçar sua segurança.

Human Rights Watch cobra ação contra madeireiros

O pesquisador da Human Rights Watch, César Muñoz, divulgou uma nota em que cobra as autoridades brasileiras uma “investigação completa e independente sobre o ataque”. “É fundamental que as autoridades realizem uma investigação completa e independente sobre o ataque, e haja punição dos responsáveis, além de proteção imediata ao povo Tenetehara”, escreveu.

Veja abaixo a nota na íntegra:

“Causam profunda tristeza a morte de Paulo Paulino Guajajara e os ferimentos sofridos por Laércio Souza Silva, integrantes dos Wazayzar, também conhecidos como “guardiões da floresta”, do povo Tenetehara. Segundo informação preliminar, os guardiões foram vítimas de uma emboscada por madeireiros no interior da Terra Indígena Araribóia, no Maranhão. Um madeireiro também pode ter morrido no confronto.

É fundamental que as autoridades realizem uma investigação completa e independente sobre o ataque, e haja punição dos responsáveis, além de proteção imediata ao povo Tenetehara.

A TI Araribóia abriga um dos últimos redutos de floresta amazônica no estado do Maranhão. Os guardiões começaram a monitorar o território, cansados de ver como madeireiros e fazendeiros destruíam a floresta com total impunidade, pela passividade das autoridades. Nos últimos anos, os guardiões Tenetehara têm sofrido dezenas de ameaças de morte.

O nome de Paulo Paulino Guajajara se soma a uma longa lista de mais de 300 pessoas assassinadas durante a última década no contexto de conflitos pelo uso da terra e de recursos naturais na Amazônia – muitas delas por pessoas envolvidas na extração ilegal de madeira – de acordo com dados compilados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

O Brasil precisa adotar medidas urgentes contra os madeireiros que intimidam, ameaçam, atacam e até matam aqueles que, como Paulo Paulino e Laércio tentam proteger a floresta, que é patrimônio de todos os brasileiros”.

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