Política Editorial

No início do século passado, aconteciam as primeiras greves no Brasil agitadas por operários descendentes de imigrantes italianos organizados em sindicatos. A ferramenta principal usada pelos trabalhadores eram os jornais sindicais, que comunicavam as paralisações e divulgavam as exigências da categoria convocando todos a cruzarem os braços. Com o tempo, a comunicação popular foi se tornando ferramenta de luta contra a opressão dos patrões e do Estado e também de combate às campanhas de criminalização das bandeiras populares, levadas a cabo por monopólios de meios de comunicação que sempre manipularam a história — inclusive os livros didáticos — com mentiras e boatos.

Nos regimes militares de Getúlio Vargas e após o golpe militar de 1964, as organizações de luta do povo brasileiro, em especial os partidos comunistas — PCB e PCdoB — refugiaram suas ideias em jornais e boletins que eram distribuídos discretamente aos lutadores do povo e aos trabalhadores em lugares de grande trânsito como os trens e os estádios de futebol. Fora desses espaços, nas redações das grandes empresas de comunicação, jornalistas eram dizimados de seus postos e, aqueles que permaneciam tinham grande parte de suas matérias e artigos editados ou censurados. A comunicação popular continuava sendo a única forma de resistência das ideias e posições das organizações progressistas e, principalmente, das revolucionárias.

Nos dias de hoje, mais uma vez as trincheiras de luta do povo brasileiro encontram-se inundadas de contradições e ataques do Estado, do fascismo e do oportunismo eleitoreiro. Como resposta, o povo multiplicou sua capacidade de comunicar, usando os telefones celulares para filmar e fotografar; e as redes sociais para veicular suas notícias e posições políticas.

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Enquanto a classe média reacionária clama por mais violência contra o povo para sanar o seu medo do “bandido, negro e favelado”; o povo pobre sofre com a mais dura e cruel opressão e a crescente militarização de sua vida cotidiana, nas favelas, no campo e nas áreas de luta indígena. A transformação do Rio de Janeiro em uma espécie de laboratório de políticas de genocídio e militarização está promovendo uma barbárie nas favelas e o Estado segue empilhando corpos. O coronelismo segue exterminando camponeses, indígenas e quilombolas em áreas de interesse extrativo no norte e nordeste do país.

Mais uma vez a comunicação se mostrou uma ferramenta de resistência a essa realidade cruel. Em favelas como o Complexo do Alemão, Acari e Cidade de Deus — alguns dos territórios mais assolados pela violência do Estado — Coletivos de comunicação surgiram para denunciar a ação criminosa das polícias e dar eco às lutas e posições políticas do povo pobre, negro e favelado. Isso só foi possível, primeiro, graças à fibra revolucionária e disposição de lutar dessa massa de favelados cansados de opressão, racismo e injustiça e, segundo, graças à apropriação por parte do povo de algumas ferramentas de comunicação.

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Hoje, o povo não espera mais pelo comunicador branco, diplomado, o salvador, o porta-voz, que irá anunciar as mazelas às classes médias pelo seu ponto de vista. Hoje, diante de uma injustiça, a trabalhadora, o jovem estudante, o mototaxista, sacam seus celulares, filmam, fotografam, coletam provas, elaboram textos e, em minutos, o material pode ser acessado amplamente nas redes sociais, inclusive pelos abutres do monopólio dos meios de comunicação. E eles fazem bom proveito disso, demitindo jornalistas e reduzindo ao máximo suas equipes, passando a pautar grande parte do conteúdo veiculado pelo que as massas publicam nas redes sociais. Com efeito, o povo como comunicador popular começa a pressionar e constranger as pautas dos monopólios da mídia e deixa de ser um passivo receptor nos processos de comunicação.

A Rádio Mutirão surge em junho de 2016 da articulação de comunicadores populares do Rio de Janeiro para receber na cidade 30 jornalistas e comunicadores da América Latina e Caribe, e efetuar uma série de atividades de formação e cobertura jornalística no marco da realização dos Jogos Olímpicos Rio2016. A proposta do encontro, que durou duas semanas, foi realizar uma cobertura colaborativa das violações de direitos do povo, que se agravaram no contexto dos megaeventos, e também uma jornada de oficinas de comunicação popular, na qual os participantes da América Latina circulassem por favelas e bairros pobres do Rio, aprendendo e compartilhando conteúdos sobre comunicação comunitária e lutas populares.

Estiveram representados coletivos e organizações que atuam nas lutas do continente em apoio à resistência Mapuche no Chile, à luta por autodeterminação dos povos indígenas no México, à resistência de mães de vítimas do estado na Argentina, a resistência dos povos garífonas de Honduras, aos movimentos de comunicação comunitária na Guatemala e Peru, aos grupos indígenas Shuar do Equador, às resistências indígenas na Colômbia, organizações que disseminam técnicas de segurança digital e protocolos de produção de vídeo como prova dos Estados Unidos, um coletivo de Colombo-Palestinos, além de comunicadores e movimentos sociais locais do Rio de Janeiro.

Esse encontro foi chamado de Mutirão Rio 2016 e contou com uma vasta produção dos participantes que acumulou 6 programas de TV ao vivo, 15 programas de rádio, 30 artigos escritos, 17 vídeos, 25 oficinas de formação em mídias populares espalhadas por favelas, comunidades de pescadores e quilombolas da cidade (Complexo do Alemão, Babilônia, Manguinhos, Borel, Quilombo Camorim, Associação de Pescadores de Sepetiba) além da presença de cerca de 60 militantes de movimentos sociais do Rio de Janeiro nos programas realizados nos estúdios do Mutirão durante o encontro.

Após a realização dessas atividades, o coletivo organizador no Rio de Janeiro decide manter o espaço de comunicação independente – estúdio e redação – que foi montado especificamente para o encontro. O objetivo era seguir produzindo conteúdos de formação em mídias populares para os movimentos sociais, bem como continuar denunciando os ataques contra o povo. Desse compromisso surge a Rádio Mutirão, que atualmente desenvolve os seguintes projetos:

Bombozila: portal de filmes e documentários que retratam a luta do povo no continente latino americano – atualmente conta com cerca de 160 filmes em destaque de um acervo de 450 filmes catalogados.

Soberania Audiovisual: semana de exibições e oficinas de audiovisual espalhadas por 5 estados do pais com a participação de 700 pessoas, na perspectiva de fomentar e encorajar a produção audiovisual autônoma e popular e reivindicar o protagonismo do povo na documentação da sua memória de luta.

Tambor: curso de comunicação popular – destinado a comunicadores independentes Rio de Janeiro.

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