Estado intensifica extermínio de pobres no Rio de Janeiro

O ano de 2018 certamente será lembrado como um ano sangrento na história do Rio de Janeiro. Em janeiro, o secretário de segurança pública Roberto Sá informou que uma das metas do governo seria diminuir em 20% o indicador de mortes oriundas de intervenção policial em 2018. Pura falácia. Ainda estamos em abril e o número já ultrapassa a marca de 250 mortos. Segundo dados do próprio ISP — Instituto de Segurança Pública — desde 2003 que a polícia não mata tanto no período entre janeiro e abril.

No início do mês de abril, as polícias civil e militar fizeram operações na Baixada e Capital do estado que deixaram ao menos duas pessoas mortas. No dia 5, quando ainda amanhecia, a polícia chegou à favela Parque Colonial, no bairro Parque Roseiral, em Belford Roxo, região metropolitana do Rio invadindo casas e revistando moradores. Um homem teria sido baleado e moradores acusam policiais pelo disparo. Ele chegou a ser levado pelos PMs ao Hospital Municipal de Belford Roxo, no bairro Vila Medeiros, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. O local do crime não foi periciado e o caso foi registrado como auto de resistência — quando a vítima morre, supostamente, em uma troca de tiros com policiais.

No dia seguinte (6), milhares de moradores saiam para trabalhar nas favelas Fallet, Fogueteiro, Prazeres e Coroa, quando policiais do CORE, BOPE e Choque chegaram nos acessos ao Complexo pela Rua Barão de Petrópolis iniciando um intenso tiroteio. Imagens de trabalhadores se atirando no chão dos ônibus e procurando abrigo pelas ruas ganharam os noticiários locais e deram uma pequena mostra do terror vivido por milhares de pessoas. Um homem foi morto e ainda não foi identificado e inúmeras violações foram relatadas por moradores pelas redes sociais.

Helicóptero voador, dois caveirões [veículo blindado da polícia], muitos tiros, policiais entrando nas casas sem mandado, caveirão destruindo carros, moradores presos nas ruas sem conseguir sair para o trabalho nem voltar para casa. Muitos tiros na Barão de Petrópolis. Mais de 20 carros da polícia — relatou um morador pelas redes sociais.

Na segunda-feira, dia 9 de abril, uma operação de policiais do 9º batalhão da PM no Morro da Serrinha, bairro de Madureira, coração da zona norte do Rio, terminou com duas mulheres baleadas. Uma das vítimas tem cerca de 40 anos e estava em casa na Rua Riacho Doce, no bairro de Oswaldo Cruz, no momento em que foi atingida na perna. Socorrida por uma viatura do SAMU, ela foi levada para o Hospital Estadual Carlos Chagas e passa bem. A outra vítima é Elisângela Bayerl, de 46 anos. Ela estava na rampa de saída da estação de trens de Madureira, ao lado do Morro da Serrinha, quando foi atingida no pé no momento em que acontecia a operação. Levada para o Hospital Norte D’Or, em Cascadura, ela foi liberada momentos depois e passa bem.

Foi horrível. Pessoas correndo no meio dos tiros, comércio baixando as portas, gritaria, rajadas de fuzil. Eles [PMs] chegaram bem cedo e ficaram aqui a manhã inteira. Os tiros iam e voltavam. O que é pior para a gente que mora aqui, porque quando você fica achando que a operação acabou, ouve aquele silêncio e, quando vai sair de casa, começa tudo de novo. A gente fica refém dessa situação, tendo que ficar preso em casa por causa de uma guerra que não é nossa. Se você dá de cara com um policial, ainda tem que ouvir insulto, gracinha, provocação, porque eles não respeitam ninguém. Parece que favelado é tudo bicho — disse uma moradora através de mensagens enviadas à redação da Rádio Mutirão.

Grupos paramilitares executam testemunha do caso Marielle

testemunha-caso-marielleNa noite de domingo, dia 8 de abril, o assessor parlamentar Carlos Alexandre Pereira Maria, de 37 anos, foi executado a tiros em Curumau, no bairro Taquara, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio. Ele colaborava com o vereador carioca Marcello Siciliano (PHS) e havia sido chamado a prestar depoimento na Delegacia de Homicídios da Barra da Tijuca na condição de testemunha do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes no final de março. De acordo com o jornal Extra, do Rio de Janeiro, testemunhas disseram a policiais que, antes de disparar contra Alexandre, os pistoleiros teriam dito que “era preciso calar a boca dele”; um indicativo de que o assassinato seria queima de arquivo.

As ações criminosas das chamadas “milícias” no Rio de Janeiro têm acontecido com a total conivência do Estado, já que a maior parte dos integrantes desses grupos é composta por militares do exército, marinha, aeronáutica, policiais e bombeiros. Nos casos mais recentes, cinco jovens foram executados a sangue frio na cidade de Maricá, região metropolitana do Rio. Eles conversavam no pátio do conjunto habitacional Carlos Marighella, do programa Minha Casa, Minha Vida, em Itaipuaçu, quando foram abordados por milicianos, que mandaram os cinco se deitarem. Em seguida, todos foram executados sumariamente com tiros na nuca.

Foram mortos Sávio de Oliveira, de 20 anos, Matheus Bittencourt, de 18, Marco Jhonata, de 17, Matheus Baraúna e Patrick da Silva Diniz. No início de abril, a Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) e promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro prenderam João Paulo Firmino, suspeito de ter executado os jovens a mando de outros dois milicianos, Flavio Ferreira Martins, conhecido como Bimbinha, e Jefferson Moraes Ramos, que também foram presos acusados de serem os mandantes dos assassinatos.

marica

jovens-mortos-em-nova-iguacuEm outro caso quatro jovens foram executados por milicianos em Nova Iguaçu no dia 8 de abril, um domingo, uma das áreas mais assoladas pela ação de grupos paramilitares na Baixada Fluminense. Bruno Silva, Victor Silva, um jovem ainda não identificado, além da adolescente Angélica Ribeiro. O caso não foi noticiado por nenhum meio de comunicação do monopólio e chegou à redação da Rádio Mutirão por mensagens de whatsapp enviadas por colaboradores que vivem em Nova Iguaçu.

Estima-se que cerca de 160 favelas e bairros pobres em 11 cidades do Rio de Janeiro e região metropolitana do estado estão nas mãos destes grupos. O maior deles é o chamado de Liga da Justiça, criado no final da década de 1990.

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