Crônicas de um oportunismo em decomposição

Nos últimos dias, dois acontecimentos, em especial, ganharam os noticiários do Brasil e do mundo. Um deles foi o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e o outro, ainda em curso, é a iminência da prisão do ex-gerente da semicolônia, Luiz Inácio. Em ambos os casos, a ação quase sempre atabalhoada do oportunismo ficou evidente. Mas de bobos eles não têm nada e, no fim das contas, o povo é quem acaba mergulhado em uma salada de confusões e dúvidas.

Após o assassinato de Marielle, as redes sociais se infestaram pela indignação e a revolta de pessoas de diferentes classes sociais. Essa revolta tomou as ruas do Rio em dois atos que reuniram centenas de milhares de pessoas e foram marcados por falas enfurecidas de lideranças das bases dos movimentos populares e, inclusive, pessoas comuns do povo, que reivindicaram fala para colocar para fora toda revolta que o episódio trouxe à tona.

É quando o oportunismo chega com seu balde de água fria. No ato da semana seguinte, o Psol e outras siglas, como de costume, chegaram com um carro de som – um daqueles enormes – e aí foi daquele jeito: um segurança no pé da escada escolhendo quem sobe e quem desce. Até os jornalistas têm que passar pelo crivo. O Circo eleitoral estava armado, com falas de políticos de diferentes siglas do partido único.

Chegando à Cinelândia, um palco com música e falas de lideranças religiosas estava montado para emocionar a todos. Eu me emocionei muito, talvez porque, apesar de progressista, eu seja branco, de classe média e por isso minha revolta é frágil e eu tenha pouco a perder observando do alto da minha zona de conforto. Os pretos, favelados, em especial as mulheres, seguem até agora de punhos serrados perguntando quem matou Marielle.

Mas a ação do oportunismo é sempre no sentido de conter os ânimos, comover as pessoas com uma melancolia sem fim. Desanimador foi ver a imagem do Freixo na TV, cabisbaixo, triste, dizendo que iria cobrar da polícia o trabalho de polícia e, no dia seguinte, disparando que Marielle era sua cria. Na minha opinião, é justamente o contrário, pois é esse oportunismo barato que se cria em cima das lutas do povo, transformando elas em votos e produtos para o terceiro setor, suas ONGs, institutos e fundações.

O que eu esperava do Freixo? Uma fala enfurecida chamando o povo às ruas para dar o troco ocupando as praças e prédios públicos. Ingenuidade da minha parte, admito. Ainda houve um último ato. Cerca de mil pessoas testemunharam a transformação de um importante palco da cultura carioca, o Circo Voador, em tribuna para um punhado de políticos brancos, a maioria homens escolados, derramarem suas lágrimas de crocodilo dizendo-se comovidos com o assassinato de Marielle Franco.

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Agora vemos o oportunismo promovendo Lula a preso político mesmo antes de ser preso. O mesmo oportunismo que perseguiu e prendeu Rafael Braga e outro 23 ativistas na véspera da final da Copa do Mundo de 2014. Aliás, voltando ao caso Marielle, esse é o mesmo oportunismo que ordenou a militarização da Maré e de inúmeras outras favelas, inclusive o Morro Santo Amaro, ocupado por meses pela Força Nacional de Segurança.

Os presos políticos não recebem benesses como salas especiais na superintendência da PF, direito de ser conduzido sem algemas. Ao contrário, os presos políticos são torturados, atirados nas masmorras do Estado, como foram os 23. Outros, como o presidente Gonzalo, são presos, exibidos à imprensa em uma jaula e enfiados em um buraco, condenados ao silêncio perpétuo. Cada vez mais vejo o oportunismo amansando as massas, a não ser quando um de seus interesses é violado no obscuro jogo pela divisão do feudo que é o poder político no Brasil.

Sobre a prisão em segunda instância, e por fim, quero lembrar que Rafael Braga permaneceu preso enquanto respondia por uma garrafa de Pinho Sol e um flagrante forjado; mesmo com a solidariedade de um excelente advogado, que é o João Tancredo, recorrendo em todas as instâncias até agora. Leiam o livro A Pequena Prisão, de Igor Mendes, preso em Bangú por oito meses por lutar contra os desmandos desse Estado, na época gerenciado pelo mesmo oportunismo que agora pede solidariedade dos movimentos sociais. De resto #eleiçãoéfarsa e fora o poder tudo é ilusão.

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